Não é mágica, é arte | Conto inédito do autor de O livro de Líbero

Enviado na caixa de março do intrínsecos, O livro de Líbero é uma história fascinante e recheada de personagens pitorescos sobre um menino que tem a oportunidade de ler o livro de sua vida.

Para saber mais sobre as peripécias do protagonista após sua saída de Pausado, disponibilizamos um conto extra inédito escrito pelo autor Alfredo Nugent Setubal.

Mas atenção: recomendamos a leitura somente após terminar O livro de Líbero.

 

Confira:

Ninguém veio lhe abençoar ou lhe segurar a mão e dizer: “Boa sorte”, ou “Deus esteja contigo”. Mesmo que religião nada significasse para Líbero, teria sido reconfortante. Mas não: ninguém veio dizer adeus. Ele fugiu na calada da noite, sem explicações aos pais e sem se despedir de Luca, Nanza ou quem quer que fosse. Sem se despedir de Pausado, das mangas sagradas, do campinho de futebol, da igreja do padre Enrico Giovanni ou da escola.

Na noite em que partiu, aos exatos dezoito anos e um dia de vida, seguiu a pé pela estrada de terra que se esculpia sinuosa por entre os morros e colinas. Demorou um par de horas até chegar ao cruzamento com outra estrada, um pouco mais larga. E, mesmo sem saber aonde aquele retão de terra o levaria, resolveu virar à direita e seguir em frente, com passos decididos, como se confiasse cegamente na bússola do acaso.

Quando o céu já ganhava tonalidades púrpuras, dois clarões brancos surgiram no horizonte, como os olhos de um morcego brilhando na noite, se aproximando rapidamente de Líbero até quase cegá-lo. Parou e fechou os olhos, escutando um barulho que ele recordava muito bem: o motor de um automóvel. Quando voltou a abri-los viu à sua frente não um carango lustroso como o de Venâncio Milagros, mas sim uma caminhoneta enferrujada, dentro da qual um fazendeiro assustado tentava decifrar a figura de Líbero, ali, estático na beira da estrada.

― Estou procurando o Circo Bosendorf, o senhor já ouviu falar?

O senhorzinho, coitado, nunca tinha visto um circo, quanto mais o Bosendorf. Mas se ofereceu de levar Líbero até Quatro Paredes, onde talvez o menino conseguisse mais informações. Viajou na carroceria da caminhoneta, deitado entre cenouras e espigas de milho, observando o céu passar por todas as tonalidades do degradê celestial.

Foi despachado na frente da estação de trem de Quatro Paredes.

Sem muito traquejo, parou alguns homens que passavam pela plataforma, apressados, para perguntar se se lembravam de ter visto o Bosendorf por aquelas bandas. Mas a última vez que ele soubera do circo fora sete anos antes, em uma cidade chamada Pausado, da qual ninguém tinha ouvido falar, e os homens riam e continuavam seus caminhos.

Líbero ainda tinha muita ingenuidade e pouca tarimba.

Sem saber o que fazer, apenas imitando os outros, ficou na fila da bilheteria e, quando finalmente chegou a sua vez, perguntou ao funcionário, como se perguntasse a um guru que tinha todas as respostas do universo, em que cidade poderia encontrar o Circo Bosendorf. Era urgente. Assunto de vida ou morte.

― Bosen o quê?!

― Bosendorf.

― Aqui só tem trem para Bazendar, meu filho. Serve? Ida 30, ida e volta 50.

Líbero não tinha um tostão nos bolsos. Ali, fora de Pausado, nem tudo se resolvia com favores e escambos. Precisaria de notas e moedas. Precisaria de um emprego. E não um ofício qualquer: um que viajasse. Viajasse muito. Só assim, sem nunca parar, ele poderia encontrar o que estava procurando. Na própria estação havia um mural repleto de anúncios e ofertas de empregos em Quatro Paredes. Arrancou vários e se sentou no banco da plataforma, selecionando aqueles que lhe interessavam.

Foi contratado como mascate.

De trem, corria a província inteira, de lugarejo em vilarejo, vendendo os utensílios domésticos que lhe mandavam. Não tinha casa, nem amigos, mas pelo menos lhe pagavam as passagens e hospedagem. Depois de passar dias inteiros batendo em portas de casas idênticas, desembuchando as mesmas lorotas para donas de casa que pareciam réplicas umas das outras, preenchendo e conferindo formulários sem nenhuma diferença entre si, Líbero aproveitava as horas vagas para sair à caça do Bosendorf. Aproveitar a vida? Ele teria tempo para isso depois que encontrasse o seu livro. Preferia desperdiçar alguns meses, ou até anos, em busca do livro e depois correr atrás do prejuízo quando tivesse toda a sua vida ao alcance das mãos. Por ora, só o que importava era isto: encontrar o circo, Baltazar, o calhamaço com seu nome na capa.

O problema, porém, é que ninguém se recordava de ter visto o Bosendorf. E mesmo aqueles que juravam ter certeza, “sim, me lembro, o Circo Bosendorf”, não sabiam dizer quando exatamente tinha sido a última vez que a tenda azul passara por aquelas bandas. O tempo era exíguo e logo quando uma pista começava a soar promissora já era hora de partir para a próxima cidade. O apito do trem era o aviso final, não havia tempo a perder: os patrões eram duros e exigentes, outros mascates tinham sido demitidos por menos.

Era uma questão de honra achar o circo, mas como se a cada mês precisava bater novas metas, realizar novas vendas e ainda cobrar dívidas dos caloteiros? Cada vez chegava da rua mais exausto. Exausto pelo sono mal dormido de meses e anos em hotéis de segunda, em camas cercadas por paredes finas como papel que deixavam entrar quaisquer ruídos que se sentissem convidados. Mas não só. Exausto também pois o futuro prometido não existia, porque o Bosendorf tinha se evaporado, porque as ruas e estradas eram largas demais e compridas demais para cruzá-las com calma. Porque os joelhos, apesar de jovens, envelheciam na mesma velocidade com que Líbero percebia que talvez nunca reencontrasse o Bosendorf.

Noite após noite: mês após mês: ano após ano: exausto.

Exausto por todas as noites mal dormidas que ainda estavam por vir, pelo cansaço e ansiedades que ainda não sentira, pelo vertiginoso jogo de espelhos que seu futuro lhe reservava. Exausto, acima de tudo, porque desaprendera a sonhar.

― Desaprendeu? ― perguntou Rubio uma noite, na cozinha dos Perim, enquanto as espigas de milho do jantar cozinhavam. ― E como é isso?

― Como se tivessem apagado a última luz.

Desde que saiu de Pausado, Líbero jurou, dormia um sono negro, pesado feito um tapete, e sem um mísero sonho, como se alguém tivesse fechado a torneira da qual jorrava as imagens oníricas. Sem os sonhos, só lhe restava a realidade, sempre ela, a exaustiva realidade.

Foi nessa época que ele adquiriu o hábito de enviar, pelo correio, livros para Massimo. Quando calhava de sua investigação atrás do Bosendorf lhe levar a algum sebo ou livraria, aproveitava para comprar um ou dois volumes, dependendo do salário. Em geral saía com as brochuras, mas sem nenhuma informação relevante. Os circos eram muitos, iam e vinham sem nenhum cronograma específico, e ninguém se lembrava dos nomes. Bosendorf, Medrano, Krone, Barnum… Para o público eram tudo a mesma coisa, o importante era que tivessem pipoca, animais selvagens e mulheres de decote duvidoso.

Nove anos se passaram nessa vida de mascate.

Os dias se repetiam com a calmaria entediante de um dejà-vu. Quando reclamou com o chefe, o máximo que conseguiu foi trocar os utensílios domésticos por máquinas de escrever. Não foi o bastante para preencher o vazio e a raiva que lhe incineravam por dentro. O espelho refletia uma silhueta emagrecida, mas não a alma esquálida, carcomida pela raiva e frustração.

Um dia, o destino bateu à porta, ou melhor, Líbero bateu na porta do destino. E o destino usava bigodes finos e pontiagudos. Foi convidado a entrar na casa, a sentar na sala. Tinha tudo para ser apenas mais um cliente, interessado ou não em adquirir uma máquina de escrever leve, portátil, profissional e sedutora. Em geral os fregueses cortavam o lero-lero, mas não aquele homem, que escutou todas as pataquadas que Líbero tinha sido forçado a decorar. Escutou até a última palavra, enquanto estudava o rosto do mascate à sua frente com uma fascinação pouco usual. Depois, com a naturalidade com que lhe ofereceria um copo de água, perguntou a Líbero, com o sotaque carregado:

Monsieur, me encantaria lhe fazer um portrait, me permite?

Líbero, sem entender, achando talvez que o gringo desejava fazer uma contraproposta ou algo do tipo, assentiu. O homem desapareceu da sala e voltou carregando uma espécie de cavalete. Líbero começou a calcular como se livraria daquele gringo maluco, não podia ficar horas ali enquanto o homem lhe pincelava o rosto numa tela, mas logo percebeu que aquilo não era um cavalete e que não havia tela nenhuma. Não conseguiu reclamar ou fazer perguntas: ficou absorto com o brilho metálico dos equipamentos e com os movimentos precisos do homem, ajustando aquela parafernália logo antes de recitar un, deux, trois e a sala ser preenchida por uma explosão de luz branquíssima.

Une minute, por favor.

O homem desapareceu novamente, levando a máquina fotográfica. Líbero levantou da cadeira onde estava sentado e começou a fuçar o tripé, brincando com suas pernas dobradiças que lembravam um polvo das histórias de Júlio Verne. Em cima da mesa, só agora ele notara, havia dezenas de imagens em preto e branco, fotografias de pessoas que Líbero nunca tinha visto na vida. Avançou pelo corredor sem ser convidado, até encontrar o homem saindo de uma sala de luzes vermelhas, carregando um retrato que não deixava nada a desejar para qualquer espelho em que Líbero já tivesse se visto na vida.

― Me ensine essa mágica.

― Não é mágica, monsieur. É arte.

Roland Monaldi concordou em contratar Líbero como aprendiz. Dizia que o jovem lhe fascinava pois carregava no rosto uma sombra que nem o mais poderoso dos flashes conseguia abrandar. Líbero montava e desmontava os equipamentos, preparava a sala de revelação, carregava a geringonça com o filme fotográfico. Monsieur Monaldi ensinou tudo que sabia para Líbero, menos como descobrir o milésimo de segundo exato para apertar o botão e capturar aquelas imagens repletas de vida, pois há coisas que não se ensinam, é necessário aprender sozinho ou morrer tentando.

Dormia em um depósito nos fundos da casa-ateliê. Nos fins de semana, quando Monsieur Monaldi se recusava a fazer qualquer coisa que não fosse degustar croissants quentinhos, Líbero pegava o trem até alguma cidade próxima e dava prosseguimento à sua busca disparatada. Sem explicar seus motivos, contou a Monsieur Monaldi da sua caçada ao Circo Bosendorf.

Mon dieu, mas pode estar em qualquer lugar!

― Se essa bodega ainda estiver na face da Terra, eu garanto que encontro ― afirmou. ― E ainda volto com uma foto para te mostrar.

A obsessão de Líbero não havia cedido um milímetro. O vazio e a raiva tampouco. A convivência com Monsieur Monaldi era apenas uma boa distração, muito melhor do que a vida de mascate, algo aprazível para preencher as horas e ganhar níqueis suficientes para pagar as contas. E se manter vivo, procurando o seu livro.

Aos poucos, porém, foi se dando conta de que talvez, se ele permitisse, a fotografia poderia não ser apenas um tapa-buraco, uma ocupação sem propósito, um meio para um fim, e sim um fascínio arrebatador como não sentia desde os tempos de guri, quando Massimo lhe apresentou a literatura. As palavras e os livros de Massimo ensinaram Líbero a voar. Mas Líbero estava cansado de voar, voar e se esborrachar no chão. A fotografia era a concretude, o pé no chão, a segurança palpável que sua mãe, D. Norma, tanto buscava e admirava. Na fotografia, Líbero encontrou uma maneira de capturar o mundo, as pessoas e o tempo ― tudo aquilo que, na sua perseguição doentia ao livro, ele abrira mão de desfrutar.

Passou dois anos juntando cada centavo que podia dos seus salários. Quando conseguiu o suficiente para comprar uma câmera, um flash e um tripé, apareceu no ateliê de Monsieur Monaldi, montou seu próprio equipamento e chamou o fotógrafo à sala.

Monsieur, me encantaria lhe fazer um portrait ― disparou Líbero, que teria dado tudo para capturar a expressão de surpresa no rosto do mestre. ― Me permite?

Apertou o botão no milésimo de segundo exato: todo o magnetismo dos olhos de Monsieur Monaldi estava impresso naquele retrato impecavelmente iluminado, o flash desenhando com habilidade seu bigode pontiagudo. Com a cópia em mãos, não restou outra opção ao Monsieur Monaldi senão admirar a imagem e arrematar, com biquinho e tudo:

            ― Voilà.

E foi assim que Líbero partiu rumo à nova carreira de retratista.

Ao contrário de Roland Monaldi, não tinha um ateliê: peregrinava de cidade em cidade, oferecendo seus serviços às escolas, prefeituras e famílias. Em duas malas trambolhentas, levava a máquina, as lentes, as chapas fotográficas, as bacias e os líquidos para a revelação. Amarrado às costas, o tripé.

Se enfiava em confins onde fotógrafo nenhum se dignava a ir, onde muitas vezes a fotografia ainda era uma espécie de mito, uma lenda maligna que, diziam, podia roubar uma parte da alma do retratado. Líbero desmentia essas crendices, deixe de bobagem, minha senhora, é só uma recordação para você e sua família bonita, mas em silêncio não podia deixar de concordar, pelo menos em parte. Era assim que ele se sentia, de fato: a cada flash, a cada foto, como se roubasse para si uma parte daquelas pessoas. Uma coleção de vidas. E era justamente disso que ele gostava.

 

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