Cinco mulheres latino-americanas que fizeram história

Em março, mês do Dia Internacional da Mulher, enviamos para os assinantes do intrínsecos, o livro Os abismos, da escritora colombiana Pilar Quintana.  Para  ampliar o conhecimento sobre personalidades femininas importantes da América Latina, disponibilizados no intrínsecos digital um infográfico ilustrado pela artista @ceciliatangerina e assinando pela jornalista e tradutora Elisa Menezes. Agora, o conteúdo está disponível para não assinantes e vocês vão poder conferir um pouquinho da história de cinco mulheres latino-americanas e seus feitos louváveis em diferentes áreas. Vamos começar?

 

1. Sanité Bélair

 

“Viva a liberdade, abaixo a escravidão”, teria gritado a revolucionária haitiana Suzanne Bélair antes de ser executada aos 21 anos. Sanité – como Suzanne ficou conhecida – era uma afranchi (pessoa negra que nasce livre) e lutou ativamente contra a escravidão. Em 1791, ela liderou uma rebelião de escravizados em sua região natal, Artibonite, junto a Charles Bélair, com quem se casaria em 1796. Sanité foi uma das poucas mulheres a lutar pela independência do país durante a Revolução Haitiana (1791-1804), que pôs fim ao regime escravagista.

Como sargento e tenente das tropas de Toussaint Louverture, um dos maiores líderes negros da revolução no Haiti, Sanité participou dos combates com as tropas de Napoleão ao lado do marido, que era general do Exército. Os dois foram capturados pelos franceses e condenados à morte em 1802. Sanité assistiu ao fuzilamento de Charles e, quando chegou a sua vez, se recusou a ser vendada e decapitada: ela queria morrer “como um soldado”. Incapazes de amarrá-la à pedra de decapitação, os soldados acabaram atirando em Sanité.

Apelidada de “tigresa” pelos companheiros de luta, Sanité é reconhecida pelo governo haitiano como heroína nacional. Em 2004, ela foi a única mulher homenageada na série comemorativa “Bicentenário do Haiti”, tendo sua imagem estampada nas cédulas de 10 gourde, a moeda haitiana.

 

2. Frida Kahlo

 

Hoje em dia ela é um ícone pop e seu rosto é reproduzido uma infinidade de produtos, de camisetas a chaveiros. Contudo, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, ou simplesmente Frida Kahlo, não recebeu em vida o devido reconhecimento por seu trabalho como pintora — sendo muitas vezes lembrada como “a mulher do pintor Diego Rivera”.

Nascida em 1907 na Cidade do México, Frida nunca deixou que limitações físicas a detivessem. Os ataques que sofria de colegas que zombavam dela por ter a perna direita mais curta – sequela da poliomielite que a acometeu aos 6 anos de idade – não a impediram de ser uma estudante voraz e aplicada. Aos 18 anos, sofreu um grave acidente de ônibus que marcou seu corpo para sempre, mas aprendeu a pintar sozinha, deitada na cama, enquanto se recuperava das múltiplas fraturas e lesões na coluna vertebral.

Nessa época, ela começou a se corresponder com artistas, entre eles Diego Rivera, já um renomado muralista mexicano, vinte anos mais velho, com quem se casaria aos 21. O casamento foi marcado por idas e vindas devido às infidelidades de Rivera – que se envolveu até com a irmã de Frida. A pintora também passou a se relacionar com outras pessoas, homens e mulheres, como o intelectual marxista Leon Trotski.

Frida iniciou a carreira pintando autorretratos de cores intensas que refletem as dolorosas experiências pessoais e incorporam elementos fantásticos à arte tradicional de seu país. O relacionamento com Rivera também foi um dos temas centrais de sua obra, assim como sua própria vulnerabilidade física e questões femininas que eram negligenciadas por seus pares — aborto, feminicídio, partos, entre outras. Frida dizia que, ao contrário dos pintores surrealistas, ela não pintava seus sonhos e sim sua realidade.

Mais do que uma assinatura visual, a maneira como Frida se vestia e se apresentava era um ato político. Ela sempre fez questão de manter suas marcantes sobrancelhas grossas e o buço; suas saias e vestidos volumosos e coloridos ocultavam as pernas frágeis enquanto ostentavam o orgulho que sentia da cultura de seu país.

Com a saúde muito debilitada e após longos períodos de internação, Frida morreu em 1954 na casa onde nasceu e viveu a maior parte da vida. A Casa Azul é hoje o Museu Frida Kahlo, que abriga quadros, roupas, móveis e objetos pessoais da artista.

 

3. Carola Lorenzini

 

 

Carolina Elena Lorenzini sempre amou os esportes. Durante a juventude praticou equitação, remo, atletismo, salto e lançamento de dardo, mas sua grande paixão foi a aviação. Em 1931, após muita insistência, Carola finalmente foi aceita no Aero Club Argentino de Seis de Septiembre, em Morón, na província de Buenos Aires. Para custear o curso de aviação, usava o salário de seu trabalho como datilógrafa na companhia Unión Telefónica e chegou a vender sua bicicleta. Em 1933, aos 34 anos, obteve a licença de piloto de aviação civil e passou a quebrar uma série de recordes e tabus.

Em 1935, bateu o recorde sul-americano feminino de altura, chegando a 5.381 metros em um avião Ae C-3 de cabine fechada. O feito lhe rendeu inúmeros reconhecimentos: foi capa da importante revista desportiva El Gráfico e recebeu da Aviação Militar Argentina uma medalha de ouro. Um ano depois, se tornou a primeira mulher a sobrevoar sozinha o rio da Prata, partindo do aeródromo de Morón e chegando a Montevidéu, no Uruguai. Pioneira dos ares, foi ainda a primeira mulher da América do Sul a obter o título de instrutora de voo.

Recebeu o apelido de Paloma Gaucha (Pomba Gaúcha), devido ao costume de vestir jaqueta de couro estilo aviador e bombachas – as características calças gaúchas, muito largas nos quadris e estreitas nos tornozelos.

Célebre por suas ousadas manobras aéreas, Carola morreu aos 42 anos, durante uma exibição no aeródromo Presidente Rivadavia, em Morón. Na ocasião ela tentava executar sua acrobacia mais famosa, o looping invertido, algo que apenas ela e seu instrutor, Santiago Germanó, ousavam fazer no país. Durante o voo – que consiste em ficar de cabeça para baixo e muito próximo do chão –, ela teve problemas na descida do looping e o avião se espatifou no chão.

A morte de Carola provocou comoção na Argentina e uma multidão compareceu ao seu enterro no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. Neste link  é possível ver um vídeo de um necrológio da época, com imagens de Carola com o público, os destroços do avião e cenas de seu velório. Em 2001, os Correios argentinos emitiram um selo postal comemorativo com a imagem de Carola.

 

4. Isabel Allende

 

 

Com 25 livros lançados e mais de 75 milhões de cópias vendidas, a escritora Isabel Allende é uma das autoras mais lidas no mundo. Nascida em 1942 no Peru, onde seu pai atuava como secretário da Embaixada chilena, ela foi criada no Chile e chegou a viver na Bolívia e no Líbano, devido ao trabalho de seu padrasto, que também era diplomata.

De volta ao Chile em 1959, ela se casaria quatro anos depois e teria dois filhos, Paula e Nicolás. Com o golpe militar de 1973, que depôs e assassinou Salvador Allende, sua família passou a ser perseguida pelo governo do ditador Augusto Pinochet – o pai de Isabel era primo do presidente deposto – e ela se exilou na Venezuela, onde viveria por treze anos.

Isabel atuou como jornalista e escreveu algumas peças de teatro, mas estreou na literatura aos 40 anos com um best-seller, o romance A casa dos espíritos. Lançado em 1982, o livro foi traduzido para mais de 20 idiomas, projetando-a internacionalmente. Em 1993, a obra foi adaptada para o cinema, com Meryl Streep e Jeremy Irons no elenco.

A ditadura militar é tema recorrente em sua obra, marcada pelo tom memorialístico, mesclando dados da sua biografia, história e ficção. Paula (1994), um de seus livros mais aclamados, é uma homenagem à filha, que morreu aos 29 anos em decorrência de uma rara doença no sangue, em 1992.

Autodenominada feminista, a autora fundou em 1995 a Fundação Isabel Allende, que apoia organizações sem fins lucrativos que facilitam o acesso a direitos reprodutivos, independência econômica e proteção contra a violência a mulheres e meninas em situação vulnerável. Desde 1988 Isabel vive na Califórnia, nos Estados Unidos, onde recebeu diversas homenagens em reconhecimento ao seu trabalho. Em 2014, Barack Obama lhe entregou a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais importante distinção concedida a um civil. Em 2018, ganhou a medalha de honra do National Book Award (prestigioso prêmio de literatura estadunidense).

Uma curiosidade: Isabel mantém o hábito (e a superstição) de iniciar a escrita de seus livros sempre no mesmo dia: 8 de janeiro. Foi nessa data, em 1981, que ela soube que seu avô estava morrendo, e logo em seguida começou a escrever uma longa carta para ele. A missiva se tornaria, mais tarde, seu primeiro e célebre romance: A casa dos espíritos.

 

5. Lélia Gonzalez

 

 

Pensadora e ativista nascida em Belo Horizonte (1935-1994), Lélia foi pioneira nos estudos sobre a cultura negra no Brasil e nas discussões sobre a relação entre gênero, classe e raça no mundo.

Filha de um operário negro e uma empregada doméstica descendente de indígenas, Lélia Gonzalez se mudou aos 7 anos para o Rio de Janeiro, quando um de seus dezessete irmãos, Jaime de Almeida (1920-1973), foi contratado para jogar futebol no Flamengo. Esse acontecimento mudou o destino de sua família humilde e permitiu que Lélia – com muito esforço e persistência – conseguisse estudar e se formar em história e filosofia.

As barreiras sociais e contradições que encontrou no ambiente acadêmico a fizeram ingressar na militância feminista e no movimento negro. Sua visão afro-latino-americana do feminismo considerava o caráter multirracial e multicultural da América Latina, contrapondo-se à visão eurocêntrica. À frente do seu tempo, Lélia discutia, já nas décadas de 1970 e 1980, conceitos que se aproximam do que hoje é conhecido como feminismo interseccional e decolonial.

Sua produção intelectual é marcada pela mistura de saberes, abarcando filosofia, psicanálise e candomblé. Em vida, publicou apenas dois livros – Lugar de negro (1982, com o argentino Carlos Hasenbalg) e Festas populares no Brasil (1987) –, mas nos últimos anos seu pensamento vem sendo resgatado em obras como Por um feminismo afro-latino-americano (2020), que reúne textos produzidos pela autora entre 1979 e 1994.

Lélia também teve um papel importante na política nacional: participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido Democrático Trabalhista (PDT); fez parte dos debates sobre a Constituição de 1988; e integrou o primeiro Conselho Nacional dos Direitos  da Mulher.

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