O cinema é louco por ti, Patricia Highsmith

 

Por Roberto Muggiati*

 

Patricia Highsmith

Com a segunda versão de Águas profundas chegando às telas, Patricia Highsmith é uma campeã das adaptações. São quase quarenta, não só para o cinema, mas também para o rádio, o teatro e a TV. Seu primeiro livro, Strangers on a Train, de 1950, foi lançado como filme no ano seguinte sob a direção de ninguém menos do que Alfred Hitchcock. Espertalhão, Hitch comprou os direitos anonimamente pela ninharia de 7.500 dólares (a bilheteria do filme foi de 7 milhões de dólares). Pior do que isso: ele distorceu completamente a história. No livro, o protagonista é um arquiteto; no filme, um tenista de sucesso. Numa viagem de trem um psicopata, filho de ricaço, propõe ao mocinho uma “permuta de crimes”. Mataria a ex-mulher do herói, que o trai e está grávida de outro, mas se recusa a lhe dar o divórcio, impedindo-o de casar com uma jovem por quem ele está apaixonado. Em troca, o mocinho mataria para ele o pai castrador e milionário. O psicopata faz a sua parte: mata a mulher do mocinho. E passa a cobrar dele que mate o seu pai. No livro, depois de muita relutância, o mocinho acaba cumprindo sua parte no acordo e matando o velho.

Desde cedo as histórias de Patricia foram pautadas por uma espécie de “ética amoral” que, segundo ela, corresponde à vida real. (Já no filme, com a ótica moralista de Hollywood, o mocinho incorruptível é salvo por uma série de acrobacias de câmera e enredo, típicas do Mestre do Suspense.) “Assassinato é uma coisa muito séria. Eu não invento nada. Leio os jornais, que são antologias de coisas cruéis. Não demora e as pessoas darão mais crédito à ficção do que à realidade. As pessoas são malucas”, dizia a autora.

Strangers on a Train

 

Alguns puristas literários criticam o estilo de Highsmith: excesso de locais, excesso de trama, excesso de coincidências seriam suas restrições. Sua resposta: “O estilo, para mim, não tem nenhum interesse. O que me interessa é a emoção. A emoção vale mais do que o intelecto. Para mim, qualquer ser humano se torna interessante a partir do momento em que toma consciência de seus instintos. É sobre isso que construo meus livros.”

Em seu terceiro romance, O talentoso Sr. Ripley (1955), Patricia nos apresenta Tom Ripley, o personagem que será seu marco literário — e um dos marcos da literatura do século XX. Ripley é um pobretão oportunista contratado por um pai milionário para trazer de volta aos negócios da família o filho — que está torrando o dinheiro da família na doce vida europeia. Tom mata o filho do milionário, assumindo sua identidade e toda sua grana. O livro foi transformado em filme por outro monstro sagrado, o francês René Clement, em O sol por testemunha (1960), com uma dupla genial, Alain Delon (Ripley) e Maurice Ronet (Greenleaf). Quando os dois estão a sós num iate, Ripley mata Dic com golpes de remo e joga ao mar seu corpo amarrado a uma âncora. No livro, o crime compensa. No filme, Clement apronta um final moralista imperdoável. Enquanto Ripley na praia sorve seu triunfo com gim-tônica, o iate é içado da água para manutenção e o corpo de Dick surge preso aos cordames. Ripley segue do crime ao castigo. Nada mais distante do que pretendia a autora. Em 1999, ela é redimida pelo remake de O talentoso Sr. Ripley, dirigido pelo britânico Anthony Minghella numa ambiciosa produção americana com um trio de ouro da então nova geração: Matt Damon, Jude Law e Gwyneth Paltrow.

O Talentoso Ripley

Entre outros romances e contos, Patricia prossegue a saga de Tom Ripley ao longo dos 36 anos seguintes, com quatro romances. Ripley’s Game, o terceiro, vai duas vezes às telas: O amigo americano, de Wim Wenders, em 1977, com um Ripley vulgar (Dennis Hopper) envergando chapéu de caubói texano e, em 2002, com John Malkovich — o melhor dos Ripleys —  dirigido por Liliana Cavani em O retorno do talentoso Ripley. Ambientado em uma Veneza imune a clichês, não há no filme sequer uma tomada mostrando os canais. O segundo, Ripley Underground, foi filmado em 2005 pelo canadense Roger Spottiswood, Ripley no limite.

Tom Ripley está para Patricia Highsmith assim como Sherlock Holmes para Conan Doyle, Hercule Poirot para Agatha Christie, o comissário Maigret para Georges Simenon e Philip Marlowe para Raymond Chandler. Com uma diferença: ele não é o investigador, mas o investigado. Ela o descrevia como “um amoral simpático desprovido do sentimento de culpa”.

Em 2015, Todd Haynes levou às telas — com sucesso de crítica e bilheteria, além de Cate Blanchett e Rooney Mara interpretando o casal protagonista — o segundo livro de Patricia, o romance O preço do sal, intitulado depois Carol — que ela publicou em 1953 sob o pseudônimo de Claire Morgan.

Carol

Outro ponto curioso: os cineastas são tão loucos pela obra de Patricia que chegam a filmar duas ou até três vezes a mesma história. É o caso de Águas profundas. A primeira versão, francesa, de 1981, Eaux profondes, foi interpretada pelo galã de Um homem, uma mulher, Jean-Louis Trintignant, e uma Isabelle Huppert demoníaca na casa dos vinte anos. Em 1983, Águas profundas se tornou uma minissérie na TV alemã.

Em 1987, Strangers on a Train teve uma sequel, a comédia de humor negro Jogue a mamãe do trem, com Danny De Vito, e valeu à “mamãe” Anne Ramsay o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Em 1987, um dos luminares da nouvelle vague, Claude Chabrol, filmou O grito da coruja. No mesmo ano a história virou filme na TV alemã. Em 1977, os franceses adaptaram This Sweet Sickness como Dites-lui que je l’aime, com Gerard Depardieu e Miou-Miou. Antes, em 1962, a série da TV americana The Alfred Hitchcock Hour (vejam só o velho Hitch atacando de novo Patricia) levou à telinha This Sweet Sickness/Este doce mal, sob o título de Annabelle, com três medalhões cult: o ator Dean Stockwell (prodígio de O menino dos cabelos verdes), o diretor Paul Henreid (marido de Ingrid Bergman em Casablanca) e o roteirista Robert Bloch (autor do livro Psicose). Não posso omitir as versões norte-americanas para o teatro (O talentoso Ripley e Strangers on a Train — evito o título Pacto sinistro que o livro ganhou aqui por causa do filme) e, para o rádio, notadamente a BBC, que chegou a dramatizar todos os cinco livros da “Riplíada”.

O complicado J.D. Salinger — autor de O apanhador no campo de centeio — cedeu uma vez os direitos de um conto para o cinema (My Foolish Heart/Meu maior amor, 1949) e ficou tão contrariado com a versão que trancou as porteiras pelo restante da vida. Embora se chateasse de vez em quando com os maus-tratos de roteiristas e cineastas para com seus livros, Patricia sempre cedeu direitos de filmagem sem maiores problemas. E nem se pode dizer que o fazia por dinheiro, porque não era chegada ao vil metal. Talvez os mais indignados fossem seus fãs. A própria Patricia declarou certa vez: “Gostei do Amigo americano, de Wim Wenders, é bem diferente do meu livro. As modificações que fazem em minhas obras não me aborrecem. Por exemplo, Pacto sinistro foi diferente, principalmente no final. O sol por testemunha também. O importante é que o filme funcione […]”

Mas não se pode omitir que a deturpação de sua obra pela indústria cinematográfica tem sido grave e sistemática. Strangers on a Train se passa no Texas, na Flórida, no México e em Nova York. No filme de Hitchcock, a ação acontece entre Nova York e Washington, DC. O cenário de Águas profundas é uma cidadezinha do Massachusetts. Na versão francesa, o filme se passa na ilha de Guernsey, no Canal da Mancha. Duas coisas devem ser ditas sobre toda essa questão: o cinema é louco por Patricia porque Patricia sempre foi louca pelo cinema e sua narrativa é essencialmente fílmica. E ninguém descreve melhor o horror físico de matar uma pessoa do que ela. Seus cadáveres são os mais vivos e incômodos da literatura: eles se contorcem, esperneiam, resistem a morrer e, mesmo depois de idos, perturbam como se ainda estivessem vivos. Como definiu Graham Greene, Patricia “criou um mundo todo seu, um mundo claustrofóbico e irracional no qual entramos sempre com uma sensação de perigo pessoal”.

Livro e revista que estarão na caixa de dezembro do intrínsecos

Em Em águas profundas, as descrições de Vic sozinho entre suas lesmas são magistrais — ele conhece cada uma delas pelo nome e é particularmente apegado ao casal amoroso Edgar e Hortense: “Acasalavam cerca de uma vez por semana e estavam genuinamente apaixonados, pensou Vic, porque Edgar não se interessava por nenhuma outra lesma a não ser Hortense e Hortense nunca correspondia às tentativas de beijo dos outros machos.” Ao escrever este texto, eu não conhecia detalhes da nova versão que logo chegará, dirigida pelo inglês Adrian Lyne (de Atração Fatal), mas soube que as principais locações foram em Nova Orleans. Talvez porque a umidade do delta do Mississipi seja benéfica para as lesmas de Victor Van Allen…

Em águas profundas chega em primeira mão ao intrínsecos, clube do livro da Intrínseca. Em dezembro, além de um livro surpresa inédito no Brasil, marcador, cartão-postal e revista literária, os assinantes receberão um brinde especial: livro e revista extras. Em águas profundas em capa dura e uma revista com artigos que expandem a obra. Assine o clube intrínsecos até 30 de novembro e receba. 

*Roberto Muggiati é jornalista, escritor e tradutor. Estudou no Centre de Formation des Journalistes de Paris com bolsa do governo francês e atuou como Programme Assistant no Serviço Brasileiro da BBC de Londres. Trabalhou na revista Manchete, integrou a equipe inicial da Veja, foi editor da revista Fatos& Fotos e, desde 2000, colabora como freelancer nos principais títulos da mídia impressa do país. Traduziu cerca de cem livros para as principais editoras brasileiras e lançou cerca de vinte obras próprias.

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